sábado, 11 de dezembro de 2010

CHRISTOPHER NOLAN | A ORIGEM

INSERÇÃO



Especialista em roubar valiosos segredos do subconsciente das pessoas enquanto suas mentes se encontram vulneráveis quando estão sonhando é convidado para fazer uma inserção na mente de um indivíduo.


O recente filme do diretor CHRISTOPHER NOLAN (BATMAN – O Cavaleiro Das Trevas) é uma amostra do que o cinema pode ser capaz de realizar. Na verdade a premissa, a princípio pode parecer confusa e esquisita, mas Nolan vai explicando muito bem ao desenrolar da trama. Dom Cobb, LEO DiCAPRIO - ultimamente em ótima companhia cinéfila) faz este sujeito que rouba segredos de homens poderosos no mundo dos sonhos. Ele foi um arquiteto e trabalhava neste projeto com sua esposa (MARION COTILLARD vencedora do Oscar por PIAFF). Ambos foram se aprofundando cada vez mais em seus sonhos, construindo o lugar que passariam a viver o resto de suas vidas, tal efeito que fez com que se afastassem da realidade. No entanto Cobb percebeu esse vício imaginado, mas sua esposa não. Ela resolve esquecer o que é real e guarda em um cofre um objeto valioso que permitia tatear o mundo físico real. Passa-se um tempo e Cobb esta voltado para o trabalho, invadindo os sonhos alheios e roubando idéias, uma habilidade que o fez se tornar um expert no mundo da espionagem industrial, mas também o transformou em um fugitivo, mas não na pragmática visão de “ladrão” e sim de um homem que foge de um passado doloroso, uma lembrança mal resolvida que aparece várias vezes em sua mente. Trata-se de sua esposa, um fantasma do passado. Mesmo assim, Cobb insiste e leva a diante este perigoso trabalho. Até que em uma de suas missões, conhece um industrial japonês (KEN WATANABE de O Último Samurai) que lhe faz uma proposta diferente: se ele seria capaz de fazer uma inserção, o nomeado ‘Inception’, isto é, plantar uma idéia na mente de um futuro herdeiro milionário (CILLIAN MURPHY de Extermínio) que irá herdar a fortuna do pai, dono de uma indústria de energia que esta no seu leito de morte e que compete com este japonês. Com isso, Cobb pode conseguir uma segunda chance de realizar algo aparentemente impossível e a ponto de realizar o crime perfeito (já que essas práticas são ilegais), só que não para ele, visto que no passado o mesmo havia implantado na mente de sua própria mulher uma idéia: a do suicídio. Ou seja, como ela havia se esquecido do verdadeiro mundo que vivia e não queria mais deixar aquele lugar que construiu com Cobb (aparentemente melhor) o único jeito era plantar na mente dela de que se ela morresse com ele, ambos estariam juntos para sempre no verdadeiro lugar a que pertenciam. Mas essa inserção acabou sendo um câncer para a frágil mulher, que voltou para a realidade doente e perturbada. E, totalmente hostil ela realmente se mata. Com isso, Cobb leva esta culpa para o resto de sua vida e fica mais vulnerável ainda quando guarda propositalmente a lembrança da esposa (praticamente a recria e prende ela em sua mente), com isso a vê perambulando em seus sonhos e se torna um inimigo, uma sombra, que parece antever cada movimento deles nesta jornada do sonho.


O filme tem uma proposta e concepção melhor que MATRIX. Acaba sendo mais interessante a idéia de que o sonho pode ser mais real do que um suposto mundo cibernético. Creio que a mente humana é capaz de realizar proezas mais audaciosas do que um computador. Nolan havia imaginado e trabalhou na história durante 10 anos, fazendo anotações. Tudo parecia simples e ao decorrer de seus rabiscos viu que precisaria dar mais amplitude a este projeto imaginado. Sendo assim, explora ao máximo cenas espetaculares de ação (num timing certo) e recria com o ótimo diretor de arte Guy Hendrix Dyas designs e cenários extraordinários. Outro ponto alto é a fantástica edição de som que vai crescendo ao decorrer da ação e do clímax de cada cena intensa ( na apresentação dos logotipos já da esta idéia). O mesmo tenho a dizer das batidas musicais de Hans Zimmer que recria espaços vertiginosos na música.

O filme também criou adjetivos próprios como o conceito do “Chute”(Kick) que é utilizado para acordar o indivíduo na hora do perigo e funciona mesmo como um bom despertador – hora de acordar. E o motem, um objeto qualquer em que cada um tem a responsabilidade de criar o seu, sabendo o peso e a leveza sem que nenhum outro saiba. Serviria como uma amostra física do mundo real, caso as coisas saíssem do controle enquanto se esta sonhando. E, finalmente a música, mais uma vez soa importante no enredo, quando um BG começa a tocar suavemente, é sinal de alerta quanto ao tempo naquela camada mental. Funciona como um semáforo quando esta no amarelo, e mais uma vez provando a percepção e o bom gosto de Nolan, ele utiliza a música “Non Jene Regrette Rien” de Edith Piaff.



O mais interessante do filme é o fato das camadas no sonho, basicamente um sonho dentro de outro sonho e assim sucessivamente. Nolan aventa muito bem esta ótima idéia e lhe da à oportunidade de deixar o seu filme mais grandioso na essência. E obviamente, diferente de muitos filmes do gênero os personagens demonstram muito mais a sua humanidade aqui. Portanto dizer que A Origem é apenas um filme de ficção científica com cenas de ação é uma crítica preguiçosa. Muito mais do que possa aparentar, Nolan delineia muito bem a relação humana. DiCaprio é este homem, um herói que carrega esta dor insuportável. Sua equipe é cheia de atores excelentes e com características muito mais humanas do que possa não parecer. ELLEN PAGE (de Juno) faz a nova arquiteta do grupo, diria que ela é a voz da razão, curiosa, entra na mente de Cobb e o ajuda a trabalhar na questão da esposa. É através dela que vamos descobrindo a verdade e sua personagem sempre se mostra emocionada com a história deste herói trágico e não esconde isso. Na verdade Page dá um toque feminino e de carinho ao elenco, diferente de Marion que aparece como uma figura elegante e assustadora, Page é aquela moça gentil e pronta para novas experiências. Fica assustada com o funcionamento e de sua primeira experiência dentro da mente humana, mas volta para construir mais labirintos neste trabalho. Por outro lado, TOM HARDY (de Rock´n´Rolla – A Grande Roubada – e que estará no terceiro Batman) consegue trazer simpatia ao filme e tira alguns sorrisos da platéia com piadas sutis e JOSEPH GORDON-LEVITT (de 500 Dias Com Ela) é um galanteador. Tem uma das melhores cenas do filme quando esta lutando num corredor de um hotel, a segunda camada do sonho que esta sem gravidade (praticamente Nolan teve que girar um cenário especialmente construído para filmar esta sequência espetacular) e, não perde a chance de mostrar sua química com Ellen. Os dois funcionam muito bem em cena. MICHAEL CAINE, ator fetiche de Nolan faz uma pequena ponta no começo e no final. Durante o meio do filme assistimos esta equipe liderada por DiCaprio que precisam implantar essa “Origem” na cabeça de Cillian (ótimo ator e como Caine, anda trabalhando muito com o diretor). Cada membro desta equipe-tarefa tem uma habilidade própria, seja na arquitetura, no combate, na extração, negociação e química (processo por meio de drogas que faz dormir).

O filme teve locações no Japão, EUA, Inglaterra, França, Canadá e no Marrocos – onde Leo teve ótimo desempenho em cenas de perseguição. E, sem explorar muito a tecnologia, Nolan se difere neste gênero com esta decisão. Não sabemos como funcionam aquelas bugigangas (parecem simples maletas de executivos) que fazem dormir, fica tudo mais interessante e arrojado. É um sonho, mas com o pé na realidade visto que a mente humana é um simulacro mais verossímil do que criado num “matrix” virtual. Alias, verossimilhança é algo que Nolan sempre gostou de conduzir como provou nas adaptações das HQ´s de Batman. Mesmo outro filme seu sobre mágicos (O Grande Truque) o nome já diz: é mesmo um truque. Nolan respira cinema, mas faz tudo isso com o que é realmente possível recriar, por ventura deixa o seu filme com um sentido de “realidade sonhada”. Este conceito é indubitavelmente autoral na obra de Nolan, o seu cinema é impressionante quando se diz respeito a contar uma história bebendo da fonte da fantasia e que possa parecer real no mundo físico.



E quanto ao final? Não poderia ser mais otimista. Leo acordou para a sua realidade. Sua mente não é mais a cena de um crime, apagando aquela sombra que um dia foi sua esposa e uma dolorosa lembrança. Ao mesmo tempo o filme faz uma inserção na mente do espectador: é hora de acordar, o filme terminou. Em mim, Nolan plantou a idéia de que sem dúvida alguma, é sua obra prima do cinema.





EUA/Inglaterra – 2010
Ação/Ficção/Drama
COR
147 min.
14 anos
Distribuição: Warner Bros.
Produtora: Syncopy
✩✩✩✩✩ EXCELENTE







WARNER BROS. PICTURES APRESENTA
EM ASSOCIAÇÃO COM LEGENDARY PICTURES
UMA PRODUÇÃO SYNCOPY
UM FILME DE
CHRISTOPHER NOLAN
LEONARDO DiCAPRIO
KEN WATANABE . JOSEPH GORDON-LEVITT
MARION COTILLARD. ELLEN PAGE. TOM HARDY
CILLIAN MURPHY. TOM BERENGER E MICHAEL CAINE
  Co-estrelando:
DILEEP RAO. LUKAS HASS. PETE POSTLETHWAITE . RYAN HAYWARD
Música de HANS ZIMMER Editado Por LEE SMITH
Direção de Arte GUY HENDRIX DYAS Direção de Fotografia WALLY PFISTER
Produtores Executivos CHRIS BRIGHAM THOMAS TULL
Produzido Por 
EMMA THOMAS. CHRISTOPHER NOLAN
 Escrito & Dirigido Por 
CHRISTOPHER NOLAN

13 comentários:

Kahlil Affonso disse...

grande filme... um dos melhores do ano e um dos melhores do nolan... mas ainda prefiro 'o grande truque'

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Madame Lumière disse...

Amigo querido,
Que crítica maravilhosa, só faz jus a grande homenagem que Nolan merece para esta obra prima que preza também o humanismo de cada indivíduo, suas angústias, seus sonhos.
Acho que você fez uma ótima observação quando diz que A Origem é muito mais que um SCI FI... ele mistura realidade e imaginação, sonhos e pesadelos. É um primor de Nolan. Sou apaixonada por este filme!

bjs

E em breve, eu farei a inserção no Madame Lumiere haha...

renatocinema disse...

Nolan é um novo gênio, vimos o que fez no Batman. Como fã de Quadrinhos digo: O Cavaleiro das Trevas é o melhor filme de quadrinhos da história do cinema.

A Origem, na minha visão é o filme do ano. Um Clube da Luta da nova era.

! Marcelo Cândido ! disse...

Um dos melhores filmes que vi no ano!!
Show...

Cristiano Contreiras disse...

Que crítica detalhada mesmo, dessa vez você foi bem minucioso! Gostei da maneira como misturou a análise técnica com sua opinião mais emocional. De fato, concordo, é uma obra prima! e acho que é um filme que vai se tornar clássico logo. Nasceu clássico. É denso, reflexivo, dá nó na mente, emociona...

O elenco parece conceber uma atuação histórica em conjunto...uma pena que DiCaprio não tenha sido mencionado nas indicações do Globo de ouro!

E acho a trilha de Hans Zimmer perfeita! viciante! delirante! rs

abraço

Elton Telles disse...

DESTRUIU!
vou pensar duas vezes para escrever uma crítica sobre este filme rs.
Parabéns pelo texto, Rodrigo!

e eu não poderia concordar mais com você. "A Origem" foi mesmo uma experiência cinematográfica inesquecível - o que é a cena final?

É um dos maiores do ano e merece mesmo ser reconhecido. Só pra bancar o chato e apontar algumas coisinhas que me deixaram um pouco incomodado no filme: o excesso de explicações de como cada elemento funciona, basicamente qdo Page está em cena, ela "é" o espectador. Sei que é a trama é naturalmente complexa, mas Nolan dá muitas respostas, eu diria, explica demais e acaba se repetindo em alguns momentos, pois, tipo, a gente poderia chegar em uma conclusão sozinho, mas ele mastiga um pouco. Entende o que quero dizer? Isso não tira os méritos do filme de forma alguma, só fica meio "chatinho" hehe.

e muitas pessoas dizem dessa questão de ser um filme original. Ah, not really! Esse conceito do sonho foi abordado por David Lynch à beça, mas com outro formato, outra estrutura, outro tudo. Aqui, temos a espetacularização desse conceito, o que é espetacular, mas temos outros grandes cineastas que já retrataram o onírico e a realidade com perfeição.

Fora essas ressalvas, devo dizer: OBRA-PRIMA! =)


grande abraço!

Kahlil Affonso disse...

só respondendo teu comentário no meu blog (na crítica sobre as cronicas de narnia). a bilheteria de 'principe caspian' foi menor do que a do primeiro filme, o que fez a disney querer que o orçamento do terceiro fosse menor... a disney queria gastar 100 milhões e a walden media queria 140 milhões... então a disney decidiu abandonar o projeto e a fox assumiu

Ricardo Morgan disse...

O longa pode ser complicado como “Brilho eterno de uma mente sem lembrança”, bizarro como “A cela” ou pirotécnico como “Matrix”. O melhor filme do ano disparado!

Gui Barreto disse...

Oi Rodrigo, tudo bem? Fazia tempo que não aprecia por aqui né? Obrigado pela presença lá no 1/3...

Bom, sua crítica é tão boa que me deu vontade de assistir A Origem de novo..o filme realmente é excelente, mas acho que leva o Oscar do ano que vem....acho super produção demais..a Academia parece ter uma predileção pelos filmes que exploram mais a interpretação, se bem que o roteiro do filme de Nolan é bem ousado né?

Mesmo tendo ficado fascinado com A Origem, ainda gosto mais da Ilha do Medo (como Melhor do Ano), provando mais uma vez que Di Caprio está acertando em seus projetos cinematográficos...

Abrs

1terco3.blogspot.com

Gustavo Darwich disse...

Todos falam desse filme. Tem gente que não gostou, outros que acharam o melhor filme do ano.
Infelizmente, ainda não tive a oportunidade de vê-lo, mas com certeza não vou deixar de assistir.

Abraço.

Rodrigo Mendes disse...

KAHLIL: O Grande Truque tbm tem seus méritos cara! Abs.

MADAME: Darling! Obrigado querida. Amamos I N C E P T I O N. E não vejo a hora de ler no Madame Lumière. Bjs.

RENATO: Cara, vc disse tudo! Abs.

MARCELO: Eu tbm! Show de bola! Abs.

CRISTIANO: YEHHHH! Apimente um dia a fita. Se bem que não há nada de sexual nele. Vc usou os adjetivos certos quanto as reflexões do filme. Abs.

ELTON: ESCREVA oras!!! Rs!
Obrigado meu amigo blogueiro.
E, eu já gosto das explicações minuciosas no filme. Achei que deixou ele mais atraente e isso cativou mais a platéia. Nolan gosta de uma narrativa verossímel e explicativa. Batemos a cabeça vendo AMNÉSIA, por exemplo, mas a narração OFF do Guy Pearce nos entrechos em preto e branco eram perfeitas. INCEPTION teve esses momentos rispídos e firmes com a Ellen Page.
E de fato, é um tema bem discursivo na sétima arte, só que Lynch mergulha no surrealismo. Nolan pensa no mundo físico.
Abs!

KAHLIN: Hum..agora entendi. Obrigado pela resposta cara. Acho 'Nárnia' um ótimo entretenimento. Rs! Abs de novo!

RICARDO: Lembrou bem: "Brilho Eterno..." e " A Cela". Ótimas hibridizações. Rs! Abs.

GUI: Olá meu caro! Bem vindo, rs!
Tbm gostei de ILha Do Medo. Curto bastante o gênero. DiCaprio esta acertando mesmo! Abs.

GUSTAVO: Assista cara é FANTÁSTICO. É, sou mais um que recomenda e elogia o filme. E se leu o texto antes de assistir desculpe pelos spoilers. Rs!
Abs.

Rodrigo

Reinaldo Glioche disse...

Realmente A origem entusiasma. Se existe um filme que merece o mergulho em suas minúcias é este aqui. Um dos melhores de 2010 sem dúvida nenhuma e um filme importante para a produção hollywoodiana de entretenimento. O impacto de A origem ainda será sentido nos próximos anos.
Não é que eu discorde de vc, para mim A origem é uma obra prima de Nolan, mas acho que antes dessa ele concebeu outra que (na minha opinião é superior)se chama Batman - o cavaleiro das trevas.
Aquele abraço!

Rodrigo Mendes disse...

REINALDO: Batman - The Dark Knight tbm é uma obra prima fodástica, of course. Rs!

Abs. cara!

Rodrigo