quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O DESPERTAR DOS MORTOS


VAMOS AS COMPRAS?

OUTUBRO DAS BRUXAS 2ª TEMPORADA

Depois que uma epidemia ressuscitou os mortos, dois membros de uma equipe de SWAT, um jornalista e sua namorada, refugiam-se em um Shopping Center abandonado para se protegerem de um exército faminto de zumbis. Continuação de A Noite Dos Mortos Vivos(1968) de George A. Romero.


“Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a terra.” Dez anos depois de seu grande sucesso, o seminal Night Of The Living Dead, parodiado e imitado, somente o próprio criador George A. Romero seria capaz de se reinventar, criar novos truques e aumentar a escala nesta primeira continuação de sua épica saga zumbi. 

Romero é um mestre no gênero e pelo visto é o cineasta que mais entende do impacto social que tem os seus filmes. A metáfora dos mortos-vivos sedentos de carne humana é perfeitamente discursiva, explanando a ideia de que o que aconteceria com a humanidade numa situação apocalíptica como esta. Na verdade o subgênero criado por Romero mostra do que o ser humano é capaz para se manter vivo, isto é, devemos é temer os vivos e não os mortos.

O Despertar Dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978) nunca que irá ultrapassar o posto do filme original, mas nesta fita (Romero ainda mantém a sua arte e domínio criativo, ainda mais com a colaboração de nomes importantes como a do diretor Dario Argento [Suspiria] que assina a trilha musical e com a colaboração da banda Goblin) ele conseguiu um ótimo feito. O filme também foi nomeado como “Zombie - O Despertar Dos Mortos” e chegou a ganhar uma interessante refilmagem por Zack Snyder em 2004, aqui como: Madrugada Dos Mortos, com Sarah Polley e Ving Rhames, quase o mesmo enredo e com uma diferença quebrando a tradição dos zumbis na qual os monstros saem correndo loucamente! 

Da série original realizadas por Romero as continuações foram: o ótimo Dia Dos Mortos (Day Of The Dead, 1985) mais explícito e violento, sobre um pequeno grupo de militares e cientistas que se refugiam num banker e passam a fazer experiências com os cadáveres e, depois da proposta que inicialmente seria uma trilogia, Romero resolve imitar a si próprio e desanda a série com uma sequências de apêndices fracos: Terra Dos Mortos (Land Of The Dead, 2005) este estrelado pelo falecido Dennis Hopper e ainda com John Leguizamo e a filha do diretor Argento, Asia. A premissa se passa em um futuro onde os zumbis passam a ser liderados por um morto-vivo mais inteligente que pretende levar o seu exército e assim invadir uma colônia humana protegida por murais. Detalhe: o mundo já foi completamente dominado pelos comedores de cérebro! Em seguida, sabendo da má recepção do filme, Romero investe em mais duas idéias que pretendiam retomar o sucesso da saga: Diário Dos Mortos (Diary Of The Dead, 2007) bebendo naquela fonte de A Bruxa De Blair e filmagem amadora e por último, o sexto capítulo: A Ilha Dos Mortos (Survival Of The Dead, 2009) onde sobreviventes de uma ilha da costa da América Do Norte lutam por suas vidas contra a epidemia. Infelizmente ambos muitos abaixo da média.

Ao menos O Despertar Dos Mortos permanece com uma qualidade que acredito, será duradoura. Filmado no Shopping Monroeeville na Pensilvânia, e que na cena dentro de uma loja de armamentos (nunca foi uma parte do Shopping) foi na verdade rodada no centro de Pittsburgh. O mestre da caracterização Tom Savini faz uma participação no filme como zumbi numa cena em que é atropelado por um caminhão e deixa uma mancha de sangue no pára-brisa. O efeito especial foi desenvolvido pelo próprio Savini que se atirou no caminhão parado e cuspindo sangue no vidro, criando a ilusão de atropelamento (ele tinha os lapsos de criações para os efeitos durante os intervalos das filmagens). Savini acabou estreando na direção com o remake do primeiro filme em 1990

Alguns Efeitos Especiais típicos
Uma pista de patinação mostrada no filme era uma área de lazer do Shopping que depois de alguns anos foi transformada em uma praça de alimentação. Como sempre, Romero dirige produções de baixo orçamento e o seu prestígio faz com que milhares de pessoas (atores não profissionais) participem de seus filmes. Desta vez houve um número aditivo de extras para encarnarem os zumbis e cada um deles ganhou vinte dólares, um almoço grátis no Shopping e T-Shirt (camisetas) do filme! Uma curiosidade, todas as narrações radiofônicas e os comerciais massivos de TV que aparecem foram fornecidas pelo ator Adolph Caesar (1933-1986 de A Cor Púrpura, 85 de Spielberg) e também conhecido por alguns filmes de terror exploitation dos anos 70 como o engraçado Blacula (1972), a versão negra para o clássico de Bram Stoker. Caesar tinha uma voz tão famosa quanto a de Cid Moreira!

A cena onde, ao ar livre, caçadores, civis e soldados atiram nos zumbis, foi totalmente filmada com a colaboração de voluntários locais. Muitos deles traziam consigo suas próprias armas – com munições reais – para o set de filmagem. A divisão de emergência, ou seja, a guarda civil, bombeiros, policiais, todos estavam presente voluntariamente participando da brincadeira. Adoro, por exemplo,  as tomadas do ponto de vista dos helicópteros e da fuga final que sucede no telhado do Shopping na qual os sobreviventes correm para escapar com vida da matilha de mortos-vivos que lindamente quebram numa espécie de “barreira humana”, as portas giratórias do Mall. Este acabou sendo o filme predileto de Romero e do público que ajudou a render o sucesso na época do lançamento.


É bizarro, mas é Romero! A fita mostra corretamente a cultura do capitalismo ambientando este horror num local tão suburbano como em uma rede de lojas.

Romero parece repetir as estrofes como em um poema e assim como no primeiro filme, sempre há diferentes sobreviventes entre si (raça, religião...) presos em uma situação mortal, encurralados literalmente e que se almejam a sobrevivência, tem que aprender a respeitar uns aos outros, trabalharem em equipe e ter bom senso, o que obviamente não acontece para se ter um antagonismo assustador. Eles são quatro fugitivos da violência urbana antes mesmo da epidemia-zumbi, e que decidem decolar em um helicóptero para um local menos “perigoso”. Tudo acontece para piorar ainda mais a situação: combustível quase no fim, mantimentos acabando e sem previsões, mas ao delimitar com segurança uma área de armazenamento, dois membros da equipe decidem fazer um pouco de pilhagem e após a sua agradável experiência ao fazer compras, saqueando as lojas livremente, burramente eles decidem permanecer no Shopping com a esperança de que lá poderiam sobreviver durante muito tempo, afinal estavam em um lugar mais seguro do que uma igreja, por exemplo. Eles fazem o que deve ser feito, obviamente criam várias barragens nas entradas, como o Ben pregando madeiras nas portas e janelas da casa rural. Ali, protegidos dos famintos mortos, eles estariam vivendo o american way of life do consumismo imposto.


Eis uma crítica fervorosa e cheia de ironias (o filme consegue ser engraçado e menos sério do que o anterior) aos consumidores, todos nós, vítimas do quem tudo quer nada tem. Aliás, o que você faria se estivesse encurralado em um Shopping? Se os vivos querem consumir as suas necessidades básicas: comida, roupas, status, etc, os zumbis também desejam suprir as suas... e com apenas uma mordidinha seremos todos iguais!


A graça é que Romero, com a ajuda de Argento, cria um ambiente zumbifunny com os monstros arrastando os pés naqueles pisos escorregadios, gemendo, com os braços esticados, maquiagem pesada (o filme não é mais em preto e branco) e ao som de uma trilha sonora mais cômica do que aquelas musiquinhas de elevador, e assim, os zumbis vagam pelo âmbito capitalista do jeito habitual, totalmente estúpidos e famintos.

O ponto alto do filme é que o consumismo é uma perigosa distração para os humanos com vida que se esquecem do perigo que está acontecendo do lado de fora, tal situação criada pela própria sociedade.

Romero apresenta seus zumbis mortos-vivos em plena luz do dia, ao amanhecer, e mostra que o sucesso misterioso de seus trabalhos nos transporta para fora da fantasia, ele fez isso lindamente no original e amplia esta crítica para novos horizontes em Despertar. O mundo real pode realmente ser um filme de terror.




EUA/ ITÁLIA – 1978
TERROR
WIDESCREEN
126 min.
117 min. Versão Italiana
139 min. Versão Extendida
142 min. Versão em DVD
COR
18 ANOS
LONDON
✩✩✩ EXCELENTE







George A Romero´s
DAWN
OF
THE
DEAD
Estrelando: David Emge. Ken Foree. Scott H. Reiniger
Gaylen Ross. David Crawford. David Early
Richard France. Howard Smith. Daniel Dietrich
Fred Baker. James A. Baffico. Rod Stouffer
Jesse Del Gre. Clayton McKinnon. John Rice
Música de Dario Argento. The Goblins
Fotografia de Michael Gornick
Montagem George A. Romero. Dario Argento
Sets ..... Josie Caruso.  Barbara Lifsher
Figurinos .... Josie Caruso
Efeitos Especiais ....  Tom Savini
                                  Don Berry
                                  Gary Zeller
Produzido por Richard P. Rubinstein
Produtores Associados Claudio Argento & Alfredo Cuomo
Roteiro e Direção
GEORGE A. ROMERO
Dawn Of The Dead ©1978 Target/ Laurel Group.


7 comentários:

renatocinema disse...

Romero é gênio no que faz.

Parabéns pelo texto.

A arte cinematográfica de Justin Reed está the best.

Hugo disse...

Ótimo texto.

Romero é um dos poucos cineastas que criou um gênero. Todos os filmes de zumbis posteriores "A Noite dos Mortos Vivos" copiam as ideias do mestre.

Este "Despertar dos Mortos" é ao mesmo tempo um filme de terror e de crítica social ao consumismo, uma premissa maluco que deu certo.

Ainda não conferi os dois últimos filmes da saga de Romero.

Abraço

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Romero é muito bom...

O Falcão Maltês

Patricia Baleeira disse...

Romero o consultor de Walking Dead, rs.
Seu blog mês das Bruxas está MARAVILHOSO!
bjs

Reinaldo Glioche disse...

Mais um ótimo texto.Com a febre zumbi pegando forte, voltar a Romero é sempre interessante para prover perspectiva.
Não lembro necas de "O despertar dos mortos". Ando precisando pôr em prática meu próprio conselho... rsrs
abs

Elton Telles disse...

Cê sabe que sou um Romerolette, né? haha!
Excelente texto, Reinaldo, para um clássico absoluto. Há quem diga que este é melhor que o original, mas aí eu também não consigo decidir hehe.

abração!

Rodrigo Mendes disse...

Valeu Renato!
Romero Rules!

Hugo: Valeu brother. De fato, Romero é responsável por um gênero extremamente copiado e parodiado.
Abs.
*não gostei muito das continuações pós "Dia Dos Mortos"!

Antonio: Um grande cineasta. Espero que ele volte com um filme a altura de "Noite" e "Despertar".

Patricia: Obrigado querida!
The Walking Dead certamente deve muito a Romero!
Bjs!

Reinaldo: Certeza absoluta que irá gostar do filme. Refresque seu cérebro...ops, sua memória, rs!
Abração!!!


Elton: Sei que é um fã do Diretor. Este segundo ato é formidável, mas o primeiro é fenomenal.

Não se preocupe pela confusão nos nomes, de boa! rs

Abração!