sexta-feira, 10 de junho de 2016

QUENTIN TARANTINO | OS OITO ODIADOS (2015)

A OITAVA MARAVILHA DE TARANTINO


Oito estranhos precisam ficar abrigados em uma taberna durante o intenso inverno. Será que poderão confiar uns nos outros? 


Não é o King Kong, a oitava maravilha do mundo, mas é a oitava obra cinematográfica do polêmico Quentin Tarantino. E o mesmo afirmou que vai dirigir somente mais dois filmes. Sendo assim, totalizando dez longas-metragens como roteirista-diretor antes de se aposentar do ofício e se dedicar a obras literárias. E eu ainda me pergunto inquietamente tal decisão por ser tão radical, deste que é um dos cineastas mais criativos dos últimos 20 anos. Muito embora seja uma delícia ler Tarantino, mas assistir Tarantino é um prazer ainda maior!

Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015) é mais um filme Tarantinesco na qual as longas cenas e sequências com diálogos deleitam a obra. E creio que não seja um filme para os impacientes. Não tem as mesmas sequências de ação de "Django Livre" ou "Kill Bill Volume 1" e tampouco é um faroeste propriamente, aliás, eu digo que o western esta hibernando nesse filme, muito embora ele faça uma homenagem ao gênero, mas, são filmes como o terror-suspense "O Enigma de Outro Mundo" (1982), dirigido por John Carpenter, a célebre obra "The Thing" (Leia AQUI - escrita por John W. Campbell Jr. e que já foi adaptada por Howard Hawks ("O Monstro do Ártico" - 1951. Leia AQUI), a maior referência.  A fita é uma aula de cinema que segue a marca de Hitchcock. Suspense claustrofóbico adicionado ao estilo inconfundível de Tarantino até porque há também uma óbvia referência ao policial "Cães de Aluguel".

A premissa se passa durante uma forte nevasca, algum tempo depois da Guerra Civil Americana (1861- 1865) onde um caçador de recompensa a caminho da cidade de Red RockJohn Ruth (Kurt Russell) está transportando uma prisioneira, a fora da lei Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), uma mulher extremamente perigosa, mas que no momento se encontra vulnerável, acorrentada e marcada por um olho roxo. Ruth espera trocá-la por uma grande quantia em dinheiro. No caminho, os viajantes não esperavam transportar outro caçador de recompensas que se encontra em sua diligência sem cavalos e com outros prisioneiros mortos. Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que tem que fazer a linha durão para não perder o respeito pelo fato de ser negro e sofrer os abusivos racismos brutais daqueles tempos. Além de Warren, outro "carona" acaba entrando na jogada. Ele é o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), prestes a ser empossado em sua cidade. Devido as condições climáticas, todos buscam abrigo no Armazém (Ou Taberna ou Cabana) da Minnie (Dana Gourrier), onde quatro outros desconhecidos estão abrigados: Bob, O Mexicano (Demián Bichir); Oswaldo Mobray, O Enforcador de Red Rock (Tim Roth); Joe Cage, O Vaqueiro (Michael Madsen) e o General Confederado Sanford Smithers (Bruce Dern - sentado numa poltrona a todo momento). Com o passar das horas, os oito viajantes começam a descobrir segredos uns dos outros, levando um inevitável confronto sangrento entre eles. E pra quem conhece Quentin Tarantino já sabe do que ele é capaz.

O filme assemelha-se a uma peça teatral em seis atos e começa lindamente com uma lenta passagem de uma diligência e, enquanto os créditos vão sendo apresentados, vemos um close arrebatador de Jesus Cristo em uma gigante cruz enterrada na neve que vai se afastando da câmera. Já é uma referência a clássicos do western da década de 1960, como "Bonanza". No caso, a árida paisagem típica é trocada por uma fotografia belíssima em 70 mm por Robert Richardson (que trabalha com o diretor desde Kill Bill...) mostrando a branca neve que também é um personagem importante do filme. Aliás, Quentin faz questão de fazer propaganda do uso da Ultra- Panavision 70 e o resultado, desde os créditos até as cenas na taberna, são de encher os olhos. O melhor de tudo é ouvir, finalmente, temas originais de Ennio Morricone (vencedor do Oscar merecidamente) para um filme de Tarantino. Ouço a trilha sonora sempre e o meu tema predileto é "L´Ultima Diligenza di Red Rock" que é de gelar o sangue. Um dado importante é que fazia algum tempo desde Kill Bill (THE RZA e Robert Rodriguez escreveram composições originais) que Quentin não utilizava uma trilha original em um filme seu. A diferença é que "Oito" é totalmente composto por temas instrumentais originais  e ainda do próprio Morricone, que Tarantino considera mestre. Segundo Morricone: " fiquei impressionado e até chocado pela violência em algumas sequências do filme, mas depois de pensar melhor, percebi que ficamos chocados pelo horror dessa violência, mas se pensarmos nas vítimas da violência, percebemos que o Tarantino sempre está do lado do mais fraco", analisou.

A produção foi anunciada há 3 anos, porém, é marcada por alguns entreveros. Como todos já devem saber, o script original foi veiculado na internet em janeiro de 2014, o que fez Tarantino desistir do filme e publicar antes um livro. Após dirigir uma dramatização ao vivo do mesmo roteiro em um teatro em Los Angeles, ele disse que tinha mudado de opinião e que iria produzir o filme, mas que mudanças deveriam ser feitas. As filmagens começaram em janeiro de 2015 na cidade do Colorado. Nos EUA o lançamento aconteceu em dezembro de 2015 no formato de 70mm e com uma versão mais longa tendo uma "Overture" tradicional e um "Intervalo". Por aqui, infelizmente apesar de desfrutar do conceito estabelecido, estreou em formato digital com 10 minutos a menos e somente em janeiro desde ano.

Obviamente que uma produção de Tarantino divide a plateia. Acredito que suas obras mais celebradas sejam "Pulp Fiction" e "Bastardos Inglórios", numa predileção unânime. Quanto a "Oito Odiados", de fato, há os que gostam muito e os que se decepcionaram. Sou do grupo que gostou, aceitou e embarcou no filme e não viu as horas passarem. A questão do tempo, de uma montagem mais enxuta, vem sido discutido desde "Django" quando não era mais tarefa da querida Sally Menke (1953-2010) que editou os primeiros filmes do cineasta e que possuía um entendimento fora do comum com relação as ideias de Tarantino. Uma célebre parceria, não resta a menor dúvida. Mas, não desgosto do trabalho de Fred Raskin - que também editou "Guardiões da Galáxia" - que abraça a ideia de Tarantino criar verdadeiros épicos. Não vejo nada de prejudicial nesse sentido. Tarantino conduz os atores com um roteiro inteligente (não poderia ser diferente) nessa longa duração e escreve uma safra de diálogos em monólogos marcantes que não devem demorar a virar jargões. Sim, é o filme mais longo já dirigido por ele - depois de Kill Bill, somando as duas partes que são literalmente contínuas -  no entanto, o ritmo, também marcado pela incrível antecipação e suspense, algo que ele ainda não havia testado tão bem, me deixou com um gostinho a mais de apreciação se tratando de Tarantino. Felizmente, o filme não tem apenas conceituadas cenas de ação. Assim, a deleite dos que apreciam as falas de seus personagens, a preciosidade que o levou a manter um corte longo lhe permitiu que tais diálogos se tornassem acessíveis. O silêncio de algumas cenas, especialmente no início, desperta ao poético. A primeira parte pode ser lenta, mas tudo é compensado na segunda parte, quando a adrenalina toma conta na taberna.

Sem andar por atalhos, Tarantino sabe chocar e se esforça pra isso. Sabendo que a violência é algo indispensável em seus filmes, desta vez ele aproxima mais a câmera para evidenciar cabeças explodindo e homens vomitando sangue (o capítulo em que Daisy tem um segredo é de longe o melhor do longa). Sempre existiu em seus filmes conflitos étnicos e de que ele defende veemente o assunto onde ficou mais evidente a partir de "Jackie Brown". Certamente, entre todas as personagens negras em toda sua obra, o protagonista de Samuel L. Jackson é deliciosamente sádico. As personagens femininas também são bastante presentes em seus filmes, talvez a única coisa que me incomoda é ver a Domergue apanhando brutalmente a cada vez que zomba ou responde algo. Há também a forte presença do senso de humor e aqui não deixa de ser autêntico (principalmente com a piada da porta do estabelecimento).

E, por falar em polêmicas. Além do roteiro vazado, recentemente Tarantino se envolveu em manifestações contra a truculência da polícia americana (não diferente da PM daqui), especialmente a polícia que tem sempre algo contra a população negra. Com isso, Tarantino recebeu em troca, ameaças de boicote e até  de morte por parte dos policiais!


O filme é uma angustiante crítica social, ao mesmo tempo que pretende ser um suspense dramático envolto de mistérios (a cada cena não sabemos o que esperar) com personagens de faroeste passado em um período de plena revolução e transformação com paisagens deslumbrantes: planura, montanhas e vales, escondidos pela neve o que dá o tom necessário e o equilíbrio ao filme que pretende ser terrificante. Além do mais, é um estudo de personagens vivendo no limite. O oitavo filme de Quentin Tarantino é realmente uma obra exemplar e desde já de pura ressonância. Afinal, nenhum espectador está aqui por acaso, sem o maldito de um bom motivo!



SUSPENSE - DRAMA - FAROESTE
3h 7min
IMAGEM FILMES
★★★★☆


THE WEINSTEIN COMPANY Apresenta

O 8º FILME DE 
QUENTIN TARANTINO

SAMUEL L. JACKSON   KURT RUSSELL
JENNIFER JASON LEIGH   WALTON GOGGINS
DEMIÁN BICHIR   TIM ROTH 
MICHAEL MADSEN    E  BRUCE DERN 
co-estrelando: JAMES PARKS como O.B. 
Dana Gourrier
Zoë Bell 
Gene Jones 
Keith Jefferson 
Lee Horsley 
Craig Stark 
Belinda Owino 
E Channing Tatum
Trilha Musical Original Composta por ENNIO MORRICONE
Diretor de Fotografia ROBERT RICHARDSON
Montagem FRED RASKIN  Diretor de Arte YOHEI TANEDA 
Figurinos COURTNEY HOFFMAN 
Produtores Executivos
BOB WEINSTEIN   HARVEY  WEINSTEIN 
Produzido por
 RICHARD N. GLADSTEIN   SHANNON McINTOSH   STACEY SHER

ESCRITO E DIRIGIDO
POR
QUENTIN TARANTINO

The Hateful Eight ©2015 The Weinstein Company 

6 comentários:

Gustavo H. Razera disse...

Não tenho nada a acrescentar ao seu ensaio completo, só posso compartilhar a admiração por e surpresa com esse filme tão provocativo e, por que não, alegórico dos podres da sociedade americana dividida. Acho que muito dos politicamente corretos que se sentiram tão ofendidos pela violência e pelos supostos preconceito e misoginia do longa não entenderam que era justamente isso que Tarantino queria criticar, mas sem abrir mão de sua verve.

Cumps.

Rodrigo Mendes disse...

Exatamente, Gustavo. Tarantino não ameniza aquilo que almeja mostrar. Sim, fiquei um pouco incomodado com a forma que a personagem de Jennifer Jason Leigh é tratada em alguns momentos, mas não pelo destino da mesma no filme. Quem conhece Tarantino, sabe que ele não alivia o destino de suas personagens (aqui todos sem nenhum resquício de moralidade e talvez essa percepção seja mais forte aqui do que nos outros filmes) e não abre mão das situações limite em seus filmes. Por isso que eu falo que esse filme terá grande ressonância e futuramente, creio, já pode ser considerado um cult.

- Gostaria de ler um comentário seu sobre esta ou outra obra de Tarantino no Viver de Cinema. Qual o seu predileto do diretor?

Abraço.

Gustavo H. Razera disse...

Não sei dizer se meu favorito de Tarantino é Pulp Fiction ou Bastardos Inglórios - e nem tenho certeza se quero escolher só um! ;)

Cumps.

Marcelo Keiser disse...

Embora não seja a obra suprema de seu realizador, ainda assim é inquestionável a sua superioridade diante de vários outros filmes do gênero. Sua maior qualidade (para mim) é a forma como ele consegue se manter intrigante até a última cena. O espectador sempre se encontra na expectativa do que está por vir, pelo bem-vindo uso dos macetes de um bom suspense policial. Um filme genial em sua forma, de grandes atuações e que demonstram que qualidades de seu realizador continuam tão afiadas quanto intocadas.

abraço

Guilherme Z. disse...

Olá Rodrigo. Que bom ver que continua com seu blog em atividade. Suas críticas são muito boas, um apaixonado por cinema de verdade. Infelizmente tenho percebido que nos últimos anos as atividades dos blogueiros têm diminuído (eu também me incluo nessa) e provavelmente você também deve ter sentido alguma mudança em relação a frequência de leitores. Para tentar melhorar o interesse e acessos vou reativar em meu blog a parte de blogs parceiros. Tinha tirado porque vi que muitos que tinha adicionado pararam de alimentar suas páginas. Podemos fazer uma troca de links?

Sucesso para nós!

Att Guilherme

http://acervodocinema.blogspot.com.br

Rodrigo Mendes disse...

Gustavo - Pois é, difícil escolha, rs

Marcelo - Concordo, Tarantino sempre cria situações de antecipação que deixa a plateia roendo unhas pelo desfecho e isso na companhia dos excelentes diálogos. O que ele faz com o suspense nesse filme é algo que não havia praticado antes, não com tanto requinte e domínio e ainda usando a aura do western de alguma forma, embora seja mais suspense com toques de policial (só que passado no século XIX). Pra mim, aqui ele se sobressai ainda mais como diretor. "Os 8 Odiados" tem a melhor mise-en-scène já vista em sua obra e o uso do 70 mm é mais uma prova de que ele domina a técnica. Bom, de fato, obra suprema seja ainda "Bastardos Inglórios", mas revendo esse não fica muito atrás. Veremos o que ele fará com os próximos 2 filmes...

Guilherme - Tamo Junto! ;) Linkado. E, obrigado pelas gentis palavras.

Abraço a todos