quarta-feira, 29 de junho de 2016

RIDLEY SCOTT | THELMA & LOUISE (1991)

FUGITIVAS

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Duas amigas, uma dona de casa e uma garçonete, saem para um final de semana livre de compromissos, mas o passeio acaba se tornando uma implacável perseguição pelos Estados Unidos da América. 

Quem nunca quis dirigir um conversível Ford "Thunderbird" ano 1966?  Ridley Scott dos aclamados "Alien, o 8º Passageiro" (1979) e "Blade Runner, o Caçador de Andróides" (1982) realiza aqui o filme feminista por excelência. E, curiosamente, o primeiro registro de Selfie da história! Certamente o mais aclamado papel das atrizes SUSAN SARANDON (premiada com o Oscar por "Os Últimos Passos de um Homem", 1995) e GENA DAVIS (Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "O Turista Acidental", 1988). Ironicamente, ambas foram indicadas na categoria de Melhor Atriz e apesar de merecerem o prêmio (fenomenal se houvesse um empate), nenhuma levou. Em compensação, a roteirista Callie Khouri, de obras como "Divinos Segredos" (2002), "O Poder do Amor" (1995) e criadora da série "Nashville" (2012 - que ainda terá mais uma Quinta Temporada), recebeu por Roteiro Original merecidamente. Não escreveu muita coisa além das citadas acima e T&L é o seu melhor feito. Scott não levou o prêmio de Diretor o que acho injusto sendo este o seu trabalho mais pessoal e sensível. 

O filme é especial. T&L resiste ao tempo e também serve de modelo para mostrar o quanto vivemos na tão chamada "Cultura do Estupro". Evidencia o quanto a sociedade é machista e patriarcal e de como a sociedade culpa a vítima, no caso a mulher, quando a mesma sofre violência de um algoz masculino. Por outro lado, o filme não tem um tom sombrio e cru como o também aclamado "Acusados" (1988), dirigido por Jonathan Kaplan; sobre uma mulher que estava se divertindo em um bar e é atacada e posteriormente brutalmente estuprada por um grupo de homens bêbados e, pelo fato de estar alegre, com roupas curtas e "oferecida" é acusada de provocar e luta para provar no tribunal, com a ajuda de uma advogada, que realmente sofreu abuso sexual. A fita deu o Oscar de Melhor Atriz para Jodie Foster (a vítima) e tem a colaboração da maravilhosa Kelly McGillis (de "Top Gun - Ases Indomáveis"), como a advogada de acusação que não medirá esforços para ajudar sua cliente. Por que citei esse filme? Acredito que ele tem algumas semelhanças com T&L. Ambos tratam dos direitos femininos por mais que sejam em situações diferentes e apresentam duas protagonistas semelhantes. A vítima, uma mulher vulnerável e que age com temeridade e a outra que a protege e vai até as últimas consequências. 

O que difere o filme de Scott é realmente o entretenimento. Em outras palavras, seu filme acaba sendo uma aventura e menos sombrio. Com senso de humor e romance. Mas é também um Road Movie dos bons. Tem aquela trip que encanta o espectador. Um filme libertário se for achar uma melhor síntese. A sensação maravilhosa de sentir o vento indo contra você em um Thunderbird 66 e dizer um belo "Foda-se!"  T&L não é apenas um filme para o público americano e isso seria restringir o seu amplo alcance geográfico. A premissa? Trata-se de uma dona de casa entediada e subjugada; Thelma Dickinson (Davis) e sua melhor amiga, uma garçonete cínica, fumante inveterada e cansada da vida com aquele ar de mais experiente; Louise Elizabeth Sawyer (Sarandon), que embarcam em uma planejada viagem de fim de semana (muito velhas para festa do pijama e nenhum pouco otárias para ir simplesmente a um cineminha e voltar pra casa), o que, é claro, acaba terminando mal. Após se divertirem em um bar antes de irem ao destino combinado, Thelma, apesar de casada e submissa ao marido (o ótimo Christopher McDonald) sem coragem de até mesmo pedir para ele a permissão para viajar, solta a franga e se diverte além da conta, atraindo um estuprador em potencial, Harlan Puckett (Timothy Carhart) que acaba sendo alvejado por Louise à queima roupa.  O passeio se torna um pesadelo quando elas cometem o erro de fugir e acabam sendo perseguidas pela polícia numa caçada épica. O encarregado do caso é um detetive simpático interpretado pela lenda do cienma, o ator HARVEY KEITEL, que representa aquela parcela de homens conscientes e que almeja protegê-las antes que aconteça o pior. O mesmo pode-se dizer do interesse romântico da heroína, Jimmy Lennox, vivido pelo também ótimo MICHAEL MADSEN. Mas, ainda há aqueles homens sedutores que não são exatamente violentos e tampouco românticos, mas verdadeiros michês e é aí que temos um jovem e lindinho BRAD PITT como "J.D", um rapaz misterioso que acaba pegando carona com as fugitivas. Pitt personificou lindamente, em seu primeiro papel de destaque no cinema, o quanto a submissão e promiscuidade também partem da maioria dos homens. Ele não é apenas um garoto, mas alguém que precisa de uma mulher para se dar bem na vida num sentido não machista, mas, conformado. 

O que faz de T&L ecoar até nos dias de hoje? Certamemte é a sua força que tocou plateias de vários gêneros, raças e classes desde a época de seu lançamento. Até hoje surtem comentários entre os espectadores porque ele não apenas feminilizou confiantemente um sub-gênero que por muitos anos pertencia aos homens como também fez isso fornecendo detalhes sobre a evidente desigualdade social que permitia a muitas pessoas a ver a si mesmas como heroínas e protagonistas de seus destinos. Existe uma identificação universal com elas: o medo, a coragem e a odisseia de sua fuga, este talvez um lado mais fantasioso. Em meio a tudo isso, mulheres americanas comuns que lutam contra uma série de infortúnios convivendo com homens xucros, trabalhos inúteis e sem propósito, vidas entediantes sem aquele tempero especial, ao mesmo tempo que tentam sobreviver a esta selva de pedra engravatada, o diretor Ridley Scott tem a ótima ideia de capturar imagens sublimes de céus azuis, paraíso árido, planícies verdes e toda a poeira iminente da fuga e Scott é conhecido pelo visual apurado de seus filmes (principalmente, em  minha opinião, no clássico "Os Duelistas", 1977). No entanto, é nesse filme que existe o great shot de todos os tempos - evidentemente que falo da cena final no Thunderbird no Grand Canyon, uma forma poética de terminar o filme - Scott, através de seu olhar e com sua paleta de cores ajudado pelo diretor de fotografia Adrian Biddle (1952-2005) diz através das imagens a prometida liberdade que não chega. Ou seja, uma distância que vai além do grande pico da montanha sugerido no final, um abismo entre a promessa e a dura realidade que dá ao filme sua força. Acredito que este seja a maior crítica de T&L sobre os sonhos e as verdades limitantes de uma realidade. 

Thelma & Louise é tão querido que até mesmo virou paródia em um episódio de "Os Simpsons", de Matt Groening, na qual Marge Simpson sai para se divertir por várias noites com a amiga vizinha. O título é "As Escapadas de Marge" e encontra-se na Quinta Temporada da série. 


- Thelma : OK, then listen; let's not get caught.
- Louise: What're you talkin' about?
- Thelma : Let's keep goin'!
- Louise: What d'you mean?
- Thelma Dickerson: ...Go.   

E, assim vem as lágrimas. Um clássico que me faz continuar, seguir em frente...



            AVENTURA -DRAMA             
       2h 10min.      
  M-G-M 
★★★★★


UM FILME DE
RIDLEY SCOTT
SUSAN SARANDON   GEENA DAVIS
THELMA & LOUISE
HARVEY KEITEL   MICHAEL MADSEN
CHRISTOPHER McDONALD  STEPHEN TOBOLOWSKY
BRAD PITT   TIMOTHY CARHART
LUCINDA JENNEY  JASON BEGHE
MARCO ST. JOHN    SONNY CARL DAVIS
KEN SWOFFORF    SHELLY DESAI     CAROL MANSELL
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA ADRIAN BIDDLE  MÚSICA DE HANS ZIMMER
PRODUZIDO POR  MIMMI POLK  RIDLEY SCOTT
ESCRITO POR CALLIE KHOURI     
 DIRIGIDO POR RIDLEY SCOTT

Thelma & Louise © 1991 M-G-M  / PATHÉ



4 comentários:

Gustavo H. Razera disse...

Prefiro as ficções científicas de Scott, mas esse filme comprova sua versatilidade e capacidade de ir além do requinte visual e tocar em temas relevantes. Mas só se surpreende com essa "guinada" quem não está ciente da admiração do cineasta por mulheres de garra - ele sempre deixou clara sua devoção à mãe trabalhadora.

Aproveito para apreciar sua menção ao excelente diretor de fotografia Adrian Biddle, que infelizmente nos deixou tão cedo.

Cumps.

Bússola do Terror disse...

Hum! Eu sabia que esse filme era dos anos 90, mas não lembrava que ele era tão antigo assim. 1991?!
Bom, obrigado pela visita lá no meu blog. Linkei você lá.

Amanda Aouad disse...

A gente se sente ali, dentro do carro com elas. Telma e Louise se tornaram duas amigas minhas, que convivi, entendi, torci e continuo torcendo lá na imagem congelada no ar. Sem dúvidas, um filme que marcou.

Já perdi as contas de quantas vezes vi. A análise do roteiro que Syd Field faz no livro Quatro Roteiros também é muito boa, acho que o melhor livro do "mago" dos manuais, rs.

Agora, em relação à questão feminina. De fato é um filme marco, pois, mostra, exatamente a visão machista do mundo. Não por acaso a "única" solução para elas foi aquela.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Gustavo - disse bem, ele é um grande entusiasta e apoiador da causa feminina. Aquele filme com a Demi Moore, apesar de irregular, evidencia isso. Pessoalmente, prefiro mulheres em destaque nas histórias, roteiros. Os filmes onde a figura feminina é retratada como heroína, anti-heroína, vilã, sem o esteriótipo. Da mesma forma que amo personagens femininas em outros meios como Madama Butterfly, citando uma.
Abraço.

Bússola do Terror - Eu que agradeço. Volte sempre.

Amanda - perfeito o seu adendo quanto a Syd Field. "O Manual do Roteiro" é o meu livro de cabeceira. E, sim, Scott pontua isso no filme. A bola de neve que se tornou a "aventura" delas é justamente por fazer de tudo para sobreviver nesse mundo patriarcal.
Beijos.