quinta-feira, 28 de julho de 2016

STEVEN SPIELBERG | PONTE DOS ESPIÕES (2015)

A NEGOCIAÇÃO


Durante a Guerra Fria advogado americano é recrutado para defender um espião soviético, e depois ajudar a CIA em uma missão ultra secreta: facilitar a troca deste espião por outro, um piloto americano capturado pela URSS. 


Fazia tempo que não publicava uma resenha crítica de um filme de Steven Spielberg. Ainda um dos diretores mais aclamados do cinema. Dispensa maiores apresentações. Em mais uma brilhante produção "séria" ou "filme de adulto", fugindo dos escapismos pipoca. Baseado em fatos reais, PONTE DOS ESPIÕES (Bridge of Spies, 2015) faz parte da safra de filmes como "Munique", "Cavalo de Guerra", A Lista de Schindler", "Império do Sol" e "A Cor Púrpura"(de 1985, sua primeira investida. Ele ainda prepara para o ano que vem "The Kidnapping of Edgardo Mortara"). Embora eu relute em gostar de "Amistad" e ter considerado "Lincoln" sonífero numa primeira sessão (hoje já aprecio melhor o filme), esta linha de filmes do homem que fez o oposto em exemplares como "Tubarão" e "Os Caçadores Da Arca Perdida" tem se tornado, desde 1985, uma de suas grandes conquistas. 

Continua um excepcional diretor em sua quarta parceria com TOM HANKS. Sempre irei considerar "O Resgate do Soldado Ryan"   - o seu segundo Oscar após a ousadia e coragem de "Schindler" -   o filme mais representativo e ressonante da parceria Spielberg-Hanks ("Prenda-me Se For Capaz" e "O Terminal" carregam a mesma leveza de entretenimento que imortalizou o diretor). Mas, fiquei ainda mais impressionado com a qualidade de "Ponte dos Espiões". É um gênero na qual Spielberg não havia trabalhado: A Espionagem e, obviamente, fazendo deste um Thriller dos bons passando-se no período histórico perfeito: THE COLD WAR, A Guerra Fria; outro assunto que Spielberg almejava discutir, tendo apenas citado o assunto de forma cômica na aventura "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal", com Harrison Ford, naquela sequência inicial na qual Indy entra dentro de uma geladeira para escapar de uma explosão atômica em área de teste e onde no decorrer do filme os russos se tornam os malvados no lugar dos nazistas. Bom, além de ter uma ótima premissa, o diretor ainda teve a sorte de obter colaboração de ninguém menos do que dois grandes e brilhantes roteiristas e cineastas contemporâneos: JOEL & ETHAN COEN, que conseguem trazer pitadas de humor negro em clima tenso. Mas, o script ainda tem a assinatura de MATT CHARMAN, da minissérie de TV "Black Work" e do filme "Suite Francesa", 2014, estrelado por Michelle Williams. Obras que ressaltam o suspense, drama e temática de guerra. Charman já estava mais a frente do projeto quando entrou de cabeça em suas pesquisas sobre a Guerra Fria e as consequências da prisão do espião soviético. 

Antes de tudo, é preciso conhecer o plot que instigou o filme. O incidente do avião U-2 que ocorreu durante este período, certamente o maior fiasco do governo americano. Tudo aconteceu no dia 1º de Maio de 1960, quando o avião, em missão secreta para a CIA,  foi abatido pela União Soviética. Primeiramente, o governo dos EUA negou a meta e missão da aeronave, mas soube-se depois que os americanos pretendiam invadir e espionar a URSS. Eis que The Cold War é citado como uma guerra de espiões e não de forças armadas. Não acho prudente medir comparações e dizer que foram tempos piores do que a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, mas uma consequência destes eventos e a paranoia de uma iminente guerra nuclear. Enfim, depois que o U-2 caiu, os americanos foram forçados a admitirem publicamente o seu papel na intrusão do espaço aéreo quando o regime soviético regido por Khrushchev mostrou os restos do avião surpreendentemente preservados e anunciou, ainda, que seu piloto espião responsável pelas fotografias do território russo, Francis Gary Powers, no filme interpretado pelo jovem Austin Stowell (de filmes como "Whiplash: Em Busca da Perfeição", e que aliás, é bem parecido com o verdadeiro Powers), havia sobrevivido à queda. Spielberg recria a sequência do interior do U-2 e do acidente de forma empolgante e um dos grandes momentos da fita, se deve também a Stowell quando o rapaz se encontra diante de um  tribunal  soviético como réu sem dizer uma só palavra. Assim sendo, em apenas duas semanas antes da abertura de um encontro de cúpula Leste-Oeste, em Paris, o incidente foi bastante embaraçoso para o Presidente Norte-americano Eisenhower abalando as relações com os russos. Com este pedaço da história, Spielberg poderia fazer de Powers o protagonista, mas o faz coadjuvante mesmo baseando-se neste acontecimento e no romance escrito por Giles Whittell. jornalista e correspondente em tempos de guerra. 



No entanto, Spielberg começa a trama de forma "contrária" e prefere focar em  Rudolf Abel, o espião soviético que terá influente e importante participação na negociação de Powers... e o filme não poderia ter um ator mais brilhante para viver o personagem histórico do que MARK RYLANCE. O que é aquele close inicial que Spielberg faz dele no espelho enquanto o mesmo pinta um auto-retrato? 

Rylance apresenta um homem comedido, estranho e visivelmente inteligente e foge das convenções de vilão. Inclusive, neste filme não há vilões. Temos a premissa do advogado especializado em seguros, James B. Donovan, o típico americano comum e transformado em herói. Um homem que arrisca o sossego da própria família e se envolve em uma aventura à la James Bond sem ao menos ter experiência. E, é claro, que o único capaz de sugerir este homem é Tom Hanks que tem o perfil ideal do homem comum. Donovan aceita a árdua e perigosa tarefa que é bastante distante de sua realidade como advogado, ou seja, defender Abel numa audiência criminal e enfrentar a opinião pública,  a dos colegas e de sua própria família e aqui, a mulher é vivida pela ótima AMY RYAN (de "Birdman") -  e quase não reconheço o garotinho que faz o filho de Donovan, Noah Schnapp, o Will Byers da série da Netflix; "Stranger Things" em uma cena que remete as lembranças de Spielberg quando criança explicando ao pai o que fazer quando acontecer uma explosão nuclear e o mesmo mostra uma banheira cheia d'água. Mas, diante o medo da família e todo o clima neurótico de uma população estocando alimentos e se escondendo em porões, Donovan não exime em cumprir suas obrigações mesmo sendo um marido e pai devoto. Adoro, por exemplo a cena final em que ele volta para a esposa com um enlatado que ela havia pedido como se nada tivesse acontecido e absolutamente feliz em revê-la. 

Sem perfil de aventureiro ou de espião, apesar de cumprir bem o papel, Donovan torna-se a peça principal deste jogo de negociações entre os EUA e a URSS quando é enviado secretamente a Berlim Oriental     - em pleno caos durante a construção do Muro de Berlim -   para fazer um inteligente acordo. Abel e Powers, meras peças de xadrez dos dois países. Só que, para complicar ainda mais a situação, o filme conta outra história (que também daria um ótimo filme derivado), a do universitário americano de economia Frederic Pryor (interpretado por Will Rogers) que ao ser pego pelos soldados querendo atravessar o muro, é preso. E, segundo Donovan; "Toda pessoa é importante!" Portanto, agora são dois homens pelo preço de um!

Brilhantemente o roteiro divide bem os atos de cada trama e as cenas filmadas em Berlim são excelentes. Toda a recriação do terror daquela dividida Alemanha, as cenas chocantes de pessoas sendo mortas tentando pular o muro quando Donovan esta passando num trem e reage como qualquer civil reagiria e criando um ar terrificante, Spielberg não mostra explicitamente pela distância e velocidade do trem sob aquela perspectiva. Por outro lado, Os Irmãos Coen deixam sua marca no equilibrado alívio cômico: Hanks negociando o seu sobretudo naquele frio extremo quando rodeado por rapazes do outro lado do muro a fim de informação e saindo ileso da situação, mas fazendo o coração do espectador atento gelar ou mesmo as cenas com o outro negociante soviético; Ivan Schischkin (o ator Mikhail Gorevoy) e a piadinha de que o nome de seu país é muito comprido. A construção da cena é de uma animosidade disfarçada de sorrisos e drinques. Em contrapartida, Spielberg sendo quem é, evidencia aquele sentimento sincero que nunca me incomodou e que muitos rotulam com "ismo", sobretudo na cena em que as crianças assistem a um documentário na escola sobre bomba nuclear depois de jurarem bandeira e, principalmente na relação que Hanks e Rylance dão aos seus personagens. E que é tudo menos fria. Conseguem criar uma camaradagem além da relação advogado-cliente e tampouco americano e soviético com suas diferenças. Em outras palavras, características que fazem de Spielberg um patriota, okay, mas também um  ser humano que se importa. 


É também o filme novaiorquino do diretor, com filmagens no Brooklyn muito bem executadas e finalizadas e a sequência inicial tendo a inconfundível marca de seu editor de filmagem habitual, Michael Kahn. Além de apresentar uma paleta de cores frias assinadas pelo sempre magistral, o polonês Janusz Kaminski, que é o diretor de fotografia para ele desde "Schindler". O que talvez possa estranhar o público é a trilha musical que desta vez não foi assinada por John Williams (que voltou em "O Bom Gigante Amigo", diga-se  - estava ocupado compondo para o novo Star Wars), mas compensada pelo ótimo Thomas Newman, de obras como "Beleza Americana" e "Um Sonho de Liberdade", citando duas de uma imensa obra musical para o cinema e TV. Newman da o seu tom característico e procura assemelhar-se ao olhar de Spielberg. Williams é tão fundamental na obra de Spielberg que quando o mesmo assina para outros filmes lembramos do diretor meio que instantaneamente. Desde A Cor Púrpura    - filme assinado por Quincy Jones  -  que um filme de Steven não é assinado por Williams depois da parceria iniciada em "A Louca Escapada", de 1974. Longe de ser prejudicial, aprovei o que Newman fez. Aliás, o momento em que Hanks foge de um perseguidor em uma noite chuvosa com o seu Guarda-chuva tem um dos temas mais fantásticos do compositor ou mesmo na sequência na ponte durante a troca.


O filme é também sobre a forte relação que o pai de Spielberg teve na guerra. Na verdade, "O Resgate do Soldado Ryan", principalmente (até mesmo a fantasia "Contatos Imediatos do 3º Grau") e qualquer outra temática dirigida por ele remetem as histórias do pai, Arnold M. Spielberg, hoje com quase 100 anos, e que foi um engenheiro elétrico que contribuiu de modo significativo no período da II Guerra. Segundo Spielberg no documentário sobre o filme, seu pai esteve frente a frente com um soviético que o enfrentou furiosamente ao ver seu passaporte e, quando o mesmo viu que ele era americano, logo vociferou sobre o que o governo de seu país fez prejudicando as relações e dizia isso apontando para um modelo U-2!

Concluindo, "Ponte dos Espiões" é um retrato realista do mundo da espionagem. Longe de ser uma fantasia de Ian Fleming, eis um capítulo sombrio do pós-guerra. E, simbolicamente, a ponte que existe entre diferentes culturas e seus interesses. É também sobre a guerra de inteligências a velha e necessária diplomacia (?) e sobre quatro homens  obstinados e corajosos que arriscaram suas vidas em nome de sua pátria . É mais uma vez o certeiro olhar cine biográfico de Steven Spielberg. 




DRAMA - HISTÓRIA - GUERRA - SUSPENSE
2h 22min.
FOX 
★★★★★

                                          
                                                   
UM FILME DE STEVEN SPIELBERG
 TOM HANKS   MARK RYLANCE
               Co-estrelando: AMY RYAN    SEBASTIAN KOCH Como: Wolfgang Vogel
AUSTIN STOWELL   WILL ROGERS
  BILLY MAGNUSSEN     EVE HEWSON  
JILIAN LEBLING   NOAH SCHNAPP
DAKIN MATTHEWS   MIKHAIL GOREVOY  E   ALAN ALDA
Música de THOMAS NEWMAN
Direção de Fotografia JANUSZ KAMINSKI
Editor de Filmagem MICHAEL KAHN
Direção de Arte ADAM STOCKHAUSEN
Figurinos KASIA WALICKA MAIMONE
Produção STEVEN SPIELBERG  MARC PLATT  KRISTIE M. KRIEGER
Roteiro MATT CHARMAN   ETHAN COEN & JOEL COEN
Direção STEVEN SPIELBERG
 Bridge of Spies © 2015  FOX 200 PICTURES – DREAMWORKS PICTURES – RELIANCE
PARTICIPANT MEDIA – AFTERWORKS LTD. – STUDIO BABELSBERG
AMBLIN ENTERTAINMENT – MARC PLATT

5 comentários:

Gustavo H. Razera disse...

Sua menção a Ian Fleming me fez lembrar que, durante um bom tempo, há algumas décadas, Spielberg estava louco para dirigir um Bond, mas os produtores da franquia não deixaram. Hoje em dia, mais maduro, ele fez esse filme que é o anti-James Bond, como você deixou claro: palavras-chave são diplomacia e ponte entre culturas. Não fiquei tão maravilhado quanto você, mas é, sem dúvida, mais uma obra de qualidade do Mestre.

(também gostei do trabalho de Thomas Newman aqui)

Cumps.

Rodrigo Mendes disse...

É verdade, Gustavo. Lembrei também daquela cena de Leonardo DiCaprio em "Prenda-me se For Capaz" se fazendo passar por Fleming, rs
"Cubby" Broccoli foi bastante relutante quanto a escalação de Spielberg para um filme de Bond e isso deve ter afetado algum ego do diretor, rs a escalação de Connery no terceiro Indiana Jones é também de alguma forma uma sombra desta frustração. Mas concordei sempre com Broccoli, não imagino Spielberg dirigindo um 007.

Grande abraço.

Amanda Aouad disse...

Mark Rylance é mesmo a melhor coisa do filme. Mas, não sou tão encantada com a obra quanto você. Acho sensível, tem ótimos momentos, mas acho que a realidade acaba floreada em excesso. Mesmo assim, é uma história bem contada, que aponta críticas, ainda que sutis, à guerra e à hipocrisia humana.

bjs

Hugo disse...

A interpretação de Rylance, a história e a reconstituição de época são os grande acertos do filme, que peca um pouco pela narrativa fria.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Amanda- justamente por isso Spielberg preferiu evitar maiores clichês. Não tinha outra forma de contar essa história se não mostrar a realidade como em "Schindler", "Soldado Ryan" e "Munique". Beijos.

Hugo - Gostei justamente por isso. Já era hora dele fazer um filme mais frio o que é compensado nas interpretações de Hanks e Rylance. Abraço.