terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Philip Kaufman | Os Eleitos - Onde o Futuro Começa (1983) The Right Stuff

Programa Espacial (e especial)
A história dos astronautas do Mercury Seven e sua aproximação rumo ao espaço. 

Na recente temporada de prêmios eis um dos filmes que aborda o tema corrida espacial, "Estrelas Além do Tempo" - Hidden Figures, dirigido por Theodore Melfi e que vem sendo aclamado pelos críticos e público (estreia no Brasil nessa semana). Pessoalmente, adoro o tema relacionado. Auge da corrida espacial travada pelos Estados Unidos e Rússia, Guerra Fria, NASA, enfim. Ao que indica a premissa de Estrelas Além do Tempo é ainda mais interessante, visto que foca em cientistas afro-americanas que foram cruciais na equação (literalmente) para a vitória americana em operações tecnológicas espaciais, tornando-as heroínas. Certamente tratará de racismo e sexismo o que deve deixar o filme ainda mais interessante. 
Talvez o que poucos não saibam é de um outro filme intitulado OS ELEITOS e ou/ Os Eleitos - Onde o Futuro Começa (The Right Stuff - "A coisa certa"). Hoje um clássico cult indicado a vários prêmios como o Oscar (ganhou 4 -apenas em categorias técnicas) realizado pelo diretor-roteirista Philip Kaufman, amigo de George Lucas, é o co-criador do personagem Indiana Jones e até iria dirigir originalmente o primeiro filme (Os Caçadores da Arca Perdida, 1981 - assumida por Steven Spielberg). Exímio roteirista, este é certamente seu melhor feito, mas também dirigiu: Contos Proibidos Do Marquês de Sade (2000), Henry e June (1990), A Insustentável Leveza do Ser (1988), uma versão de Invasores de Corpos (1978 - da obra de Jack Finney), Alvorecer Branco (1974), Sem Lei e Sem Esperança (1972), Fearless Frank (1967) e Goldstein (1964). Todos filmes decentes e muito bons. É verdade que Philip anda sumido, mas sempre foi um cineasta de primeira linha, subestimado pela indústria. Coincidentemente, Os Eleitos é o sétimo filme do diretor. Talvez o universo querendo dizer algo numerologicamente (?) e, apesar da longa duração - três horas e treze minutos aproximadamente, é um filme tão envolvente, entretenimento extremamente bem desenvolvido, que as horas voam mais rápido do que a velocidade do som! E já vou logo avisando...se você almeja por um filme estilo Apollo 13 não irá se decepcionar. Não é Apollo 13. É ainda melhor. Contudo, na época, as grandes expectativas em relação ao filme vieram por água abaixo. Obteve uma bilheteria abaixo do esperado, se comparado ao grande orçamento. Algumas pessoas não entenderam o que Kaufman pretendia com tomadas não convencionais sobre o heroísmo e suas maravilhosas imagens já recompensam a sessão. Pode ter tido problemas com a plateia nas salas de cinema, mas foi o contrário com a Academia que nomeou a fita com honrosas oito indicações no Oscar (incluindo Melhor Filme) e quatro prêmios conquistados, além, é claro, daqueles que são admiradores significativos, para os quais as sequências aéreas e em órbita da Terra permanecem puro êxtase. Ao menos para mim, nesse sentido, não há documentário ou outro filme de ficção que supere a façanha de Kaufman em Os Eleitos

Sete Homens e Um Destino 

O filme é na verdade uma adaptação (roteiro exemplar que estupidamente esqueceram de sequer nomear ao Oscar) de uma crônica não-ficcional escrita por Tom Wolfe, autor do romance A Fogueira das Vaidades que mais tarde seria adaptada sem sucesso por Brian De Palma em 1990. O trabalho de Wolfe foi um dos grandes best-seller e por ser justamente realista e revelador sobre os astronautas do programa Mercury. Todos homens comuns, com seus dramas, anseios. Homens de família e pessoas de "caras lavadas". A verdadeira face da natureza humana. E, por não mostrá-los como aquelas figuras clichês dos heróis, o título em inglês só evidencia isso. É o contraponto de tudo que se podia esperar desses homens. A coragem e as proezas do piloto Chuck Yaeger, por exemplo, um cara despreocupado, um individualista pouco refinado.  Ou seja, o filme sempre me espantou pela ousadia e de como esses homens viviam antes do programa espacial. 
As sequências dos voos experimentais para quebrar a barreira do som até o momento em que são selecionados, passam pelo treinamento (em paralelo, alguns deles, deixam as mulheres aflitas) e, por fim, toda uma exibição da mídia dos ditos pilotos-astronautas mais competitivos, formando um grupo de elite - distintos entre si - e também por isso, tipicamente americanos. E, no caso do título em português; "Os Eleitos" já é um belo resumo. 

Kaufman mergulha a fundo (o filme tem longos atos) os retratos afeiçoados dos pilotos. Todos eles são bem-humorados e realísticos, são colocados contra o plano de fundo de uma visão satírica da corrida espacial durante a Guerra Fria (americano adora tratar de suas conquistas com humor e auto-referência). Devo ressaltar também os típicos políticos desesperados (a cena na sala com vários deles e o Presidente Eisenhower é sensacional) para minimizar as conquistas dos soviéticos, expondo ao perigo e propagandeando um bando de heróis atípicos e instantâneos que faziam parte do sonho americano e  de sua conquista espacial. 

É ainda um filme com o melhor elenco que se poderia imaginar. Atores que estavam prestes a chegar ao estrelato - Ed Harris (Uma Mente Brilhante), Dennis Quaid (e o seu sorrido inconfundível, não por ser bonito, risos - O Dia Depois de Amanhã), Sam Shepard (do recente Mud - Amor Bandido), Scott Glenn (O Silêncio dos Inocentes), Lance Henriksen (Aliens, O Resgate), Fred Ward (O Ataque dos Vermes Malditos), Scott Paulin (muito presente em séries de TV: Lost, CSI, Arquivo X, Dr. House) e, entre outros, Jeff Goldbum (A Mosca) em uma pontinha cômica. Quanto as esposas, evidente que foram muito bem interpretadas por Pamela Reed (Um Tira no Jardim de Infância), Barbara Hershey (Cisne Negro) e a já conhecida Veronica Cartwright (Alien, O Oitavo Passageiro, Os Pássaros). 

Há vários momentos memoráveis. O mais lembrado é a equipe pedindo socorro em disparada para localizar Yaeger (Shepard) na famosa queda de seu avião e mostra um dos homens apontado para um pontinho e, totalmente inseguro, questiona: "Aquilo é um homem?" Abruptamente corta para a figura semicarbonizada, caminhando (arrogante, diga-se) e sem medo em meio aos destroços fumegantes, e de volta para o exultante companheiro de Yaeger, Levon Helm como Jack Ridley (e que também assume o posto de narrador do filme) que diz: "Pode apostar que sim!" Adoro, por exemplo, os momentos de Scott Glenn que se destaca bastante como Alan Shepard. Glenn sempre teve aquele tipo à la Clint Eastwood intimidador e na cena em que ele esta tanto ansioso para fazer xixi quanto para entrar na história, enquanto sua vigília na cápsula do foguete Saturno é impiedosamente prolongada. E, lógico, outro grande momento é na cena do voo orbital de John Gleen (Harris) tão místico quanto tenso durante a sua reentrada na atmosfera - e o filme ganha o seu mérito em espetaculares efeitos sonoros do primeiro ao último frame - irrompendo, assim, numa celebração com direito a confetes, serpentinas e desfile. E o já citado sorriso de Quaid, admirando a luz celestial refletida em seu capacete. 

Os Eleitos é um show de efeitos até modestos. É curioso como o filme com características épicas, de grande escala, a priori ambicioso, se mostrar, no final das contas, um retrato que, ao mesmo tempo, não demonstra grandiloquência. É envolvente a maneira simples e direta que Kaufman conduz um drama que mescla romance, comédia e aventura. E ainda por cima o compositor Bill Conti (vencedor do Oscar), de filmes como Rocky (1976) cria uma trilha musical emocionante de fazer os pelinhos do braço arrepiarem. E além disso, é um magnífico trabalho  que faz bom uso de The Planets de Hoist. 

Um espacial e especial programa cinéfilo e excelente entretenimento para a família. 

Estados Unidos
Aventura – Biografia – Drama
3h 13min
U Philip Kaufman
★★★★★



Uma Produção ROBERT CHARLOFF-IRWIN WINKLER
UM FILME DE PHILIP KAUFMAN
THE RIGHT STUFF
Estrelando: CHARLES FRANK   SCOTT GLENN   ED HARRIS
LANCE HENRIKSEN   SCOTT PAULIN   DENNIS QUAID
SAM SHEPARD   FRED WARD   KIM STANLEY
BARBARA HERSHEY   VERONICA CARTWRIGHT   PAMELA REED
Música de BILL CONTI  Diretor de Fotografia CALEB DESCHANEL
Baseado no Livro de TOM WOLFE
Produzido por IRWIN WINKLER e ROBERT CHARTOFF
Roteiro Adaptado e Direção  PHILIP KAUFMAN
THE RIGHT STUFF © 1983 The Ladd Company

4 comentários:

Hugo disse...

Das obras que abordaram a corrida espacial, vejo "Os Eleitos" um pouco abaixo apenas da minissérie "Da Terra à Lua".

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Hugo, faz tempo que assisti Da Terra à Lua e concordo que seja uma baita produção, mas esta no campo da TV. Pra mim, no cinema, Os Eleitos ainda fica no topo sobre corrida espacial. É irreverente, despojado, engraçado e dramático como deve ser. Qualquer filme que falou no assunto posteriormente tem ele como inspiração.

Abraço

Amanda Aouad disse...

Belo texto, Rodrigo, deu vontade de rever.

bjs

A.R.L disse...

Poderiam fazer uma matéria sobre o fraquinho filme Dylan Dog e as criaturas da noite baseado na hq de terror , Dylan Dog que retorna a ser publicada em 2017 pela Editora Lorentz, e foi vencedora de 2 hq mix de melhor hq de terror. o filme é fraquinho demais mas a hq é ótima.

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