quinta-feira, 20 de julho de 2017

Gordon Parks Jr. | Super Fly (1972)

Blaxploitation 
Parte 1

A rotina diária do traficante de cocaína Priest que almeja um super-plano para enfim se aposentar.



Oblogue CINEMA RODRIGO apresentará alguns filmes Blaxploitation, um dos subgêneros mais celebrados, cultuados, da explosiva década de 1970. Certamente a melhor época da Nova Hollywood. Filmes que consagraram e evidenciaram grandes atores e atrizes afro-americanos. Mas antes é preciso dar uma recapitulada para entender melhor esta pulsante fase do cinema norte-americano. 

O termo também é conhecido como Blacksploitation que surgiu exatamente nos anos 70. A era disco havia acabado de chegar. A contracultura já havia se manifestado no final dos anos de 1960 (sobretudo 1969 - outro ano bom para o cinema). É, em outras palavras, um portmanteau, ou seja, é uma palavra que nasce da combinação de duas outras palavras para ganhar um novo significado, no caso, black (negro em inglês - "preto", em português ou "nigger" em inglês é racista da maneira que for conotado, e, sobretudo, se for dita por pessoas brancas. Ainda assim, é uma expressão idiomática que ganhou muita ressonância na cultura hip hop, etc. ) e explotaition, literalmente exploração. Portanto, os filmes em questão eram protagonizados e realizados por atores e diretores negros, muito embora alguns diretores brancos tenham passado pelo gênero: 

1. Jack Hill um dos pilares e que influencia diretamente nomes como Quentin Tarantino. Foi ele quem dirigiu a musa do movimento, PAM GRIER em COFFY: EM BUSCA DA VINGANÇA (Coffy, 1973) e FOXY BROWN (Idem, 1974), aliás, Hill é o responsável por muitos dos filmes de exploração antes mesmo do começo do blaxploitation com mulheres em situações ousadas e explícitas nas décadas de 60-70, normalmente, filmes de terror e ficção-científica de baixo orçamento até finalmente abraçar este gênero (mas, na virada dos anos 50-60 começou a trabalhar em filmes de Roger Corman como "A Mulher Vespa", de 1959); 

2. Barry Shear (1923–1979) que dirigiu A MÁFIA NUNCA PERDOA (ACROSS 110th STREET, 1972 - uma das obras primas do gênero estrelada por Anthony Quinn e Yaphet Kotto e com a sensacional trilha musical tema de Bobby Womack, que recebeu a homenagem em Jackie Brown (Idem, 1997);

3. Jonathan Kaplan do aclamado momento do músico Issac Hayes (1942-2008) como ator em TRUCK TURNER (Idem, 1974), um dos mais cool entre todos e, finalmente,

4. Larry Coen futuro diretor de filmes como o trash "A Coisa" (The Stuff, 1985) e aquele que foi o último filme da lendária Bette Davis com "A Madrasta" (Wicked Stepmother, 1989), deixa sua marca no ótimo O CHEFÃO DO GUETO ou O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar, 1973), estrelado por Fred Williamson e Gloria Hendry (outra atriz importante desta época, tanto quanto Pam Grier, trabalhou como Rosie, a vilã espiã amadora que tenta enganar James Bond em 007 - Live and Let Die, 1973). Foi apenas o segundo longa-metragem de Coen. Antes havia feito a comédia BONE (Idem, 1972), com Yaphet Kotto, este que, aliás, é um dos nomes igualmente importantes do blaxsploitation, diga-se. 

Sem sombra de dúvida que a popularidade destes filmes cresceram entre o público negro que há tempos esperavam por fitas que retratassem um cotidiano ou mesmo ver na tela um personagem como Shaft  (falarei dele mais tarde...ou Truck Turner. Algo parecido, como bem lembra a história da sétima arte, havia sido testado nos  primórdios anos de 1910 e 1950, que eram chamados de "Race Films"(nunca gostei da conotação!). Artistas consagrados, como outra lenda, SIDNEY POITIER, foi de suma importância em filmes que colaboraram em debater um tema tão delicado e polêmico como o preconceito de raça. Clássicos como "Adivinhe Quem Vem Para Jantar" (Guess Who's Coming to Dinner, 1967) de Stanley Kramer foi um destes filmes. Poitier, diferente dos negros descolados dos anos 60 e 70 apresentava uma elegância ímpar e uma personalidade forte sem desmerecer a própria raça ou qualquer ideia que o valha. Outra obra-prima do astro foi mais um clássicão lançado no mesmo ano e que é o meu predileto dele: "No Calor da Noite" (In the Heat of the Night), dirigido por Norman Jewison. É de suma importância citar Poitier, afinal, muitos atores seguem sua trilha como Denzel Washington, por exemplo. 

*Adendo: Recomendo que assistam "Pioneers of African-American Cinema", no catálogo da NETFLIX, uma coletânea de filmes realizados por diretores negros pioneiros para o seu público em especial. Produções variadas, histórias emocionantes, que datam de 1915 e 1946


E, com trilhas sonoras sensacionais de músicos consagrados dos quais, além do já citado Isaac Hayes Bobby Womack, são; Curtis Mayfield, James Brown, Quincy Jones, Barry White, Marvin Gaye, Willie Hutch entre outros. E o que seriam destes filmes sem tais trilhas musicais? 

Assim sendo, eis que, no meio do turbilhão de filmes Baadasssss... nasceu SUPERFLY (idem, 1972), o melhor filme da história sobre como é realmente a vida de malandro! E podem fazer zilhões de fitas sobre qualquer malandro que certamente nenhuma delas irá captar a essência do malandrão criado pelo saudoso cineasta GORDON PARKS JR. (1934-1979 - que morreu tragicamente em um acidente aéreo em Nairóbi no Quênia) era filho do também cineasta GORDON PARKS (1912-2006) que criou o SHAFT em 1971 (estrelado por Richard Roundtree. Aguardem pelo post...). 

O filme apresenta uma trilha funk que fervilha a alma, aliás, obra do gênio Curtis Mayfield (1942-1999), e, um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Sua música ajuda a ressaltar o machismo do anti-herói, Priest, de RON O´NEAL (1937-2004). São famosos, principalmente, os figurinos do protagonista. Aqueles trajes esfuziantes dos anos 70 são inesquecíveis e fez moda. 

Superfly é importante para o Blax.. por dois grandes motivos. Primeiro, foi um grande filme dramático sobre o crime (e de ação, lógico!) dos mais "durões" e, segundo, por ter sido financiado por um grupo independente de empresários negros, isto é, foi, de fato, o primeiro filme a receber tal honraria. E, o mais importante ainda, obteve uma equipe técnica de produção que também era quase totalmente negra. À época, antecipou a infiltração de roupas vivazes e o uso de drogas, a cocaína que deu o que falar! Fatos que acabaram por adentrar na cultura pop americana. 


A premissa é basicamente a saga de um malandro (nem diria bandido ou gangster como se veria posteriormente na obra de Martin Scorsese...) ele é um traficante espertalhão do Harlem e, que almeja fazer aquela que será a sua última venda para converter toda a sua cocaína em dinheiro vivo e, enfim, começar uma nova vida longe do crime. O diretor Gordon Parks Jr. declara veemente de maneira contundente sobre como a oferta contínua de drogas ilícitas no âmbito do gueto é motivo de dor, sofrimento e de uma rotina infindável de violência. Apesar de seu filme soar como entretenimento é uma declarada confissão das injustiças sociais. Uma crítica aos governantes e de como a comunidade negra, desde sempre, viveu (e vive) a própria sorte. É uma daquelas típicas histórias que bebe da fonte clássica do príncipe dos ladrões, Robin Hood. Um fora da lei que é admirado por sua vizinhança (embora Hood não fosse rico), mas que nunca que um certo altruísmo da parte de Youngblood Priest (O´Neal que nasceu para viver o personagem!) deixe escapulir. Ainda que traga consigo o glamour inconsequente e provavelmente a consciência política negra ineficaz e contraproducente. No entanto, é impossível criticar duramente um filme como Superfly...aliás, é aquela velha história triste do racismo...um negro incomoda muita gente! Agora, pensem em um negão como Priest!? Pensou? Pois bem, mesmo que muitos afirmem que a fita de Parks Jr. carece de uma mensagem coerente e politicamente correta, não se esqueçam que naquele contexto fora necessário colocar para fora determinados demônios entalados na garganta. Portanto, a crueza do cinema blaxploitation não perdoava. E, por isso, Superfly têm diálogos tão diretos, sua edição de filmagem em stills ao som de "Pusherman" que são momentos despreocupados e que me envolvem de uma maneira inexplicável. Talvez pela originalidade que tanto admiro nesses filmes... o fato é que a figura de O´Neal é tão docemente carismática, irônica, ele é um grande cool dude que faço parte daquela audiência sentada na poltrona que não consegue evitar a excitação. 

Cenas de SEXO eram comuns e o público fervilhava! 


Um dos filmes mais aclamados, amados e citados do ciclo blaxploitation... o ousado e original trabalho de Gordon Parks Jr. merece ser comparado ao do pai em "Shaft"e de outros nomes que pretendo postar aqui no blogue mais tarde...falo de Melvin Van Peebles e o aclamado "Sweet Sweetback´s Baadasssss Song" (idem, 1971 - uma das obras mais significativas do gênero e que curiosamente nunca  estreou no Brasil!).  

               Aguardem...virão mais filmes cabeludos da década de 70 na sessão do CR! 



Estados Unidos
Ação-Crime-Drama
1h 33min.
UGordon Parks Jr.
★★★★☆



Super Fly
UM FILME DIRIGIDO POR GORDON PARKS JR.

Produção SIG SHORE

Roteiro PHILLIP FENTY

Direção de Fotografia por JAMES SIGNORELLI
(Sinorelli dirigiu em 1988 o clássico da Sessão Da Tarde ELVIRA: A Rainha das Trevas!)

Música de CURTIS MAYFIELD

Estrelando: RON O´NEAL
com: CARL LEE   SHEILA FRAZIER   JULIUS HARRIS
CHARLES McGREGOR   NATE ADAMS  POLLY NILES
YVONNE DELAINE   HENRY SHAPIRO  K.C.
JAMES G. ROBINSON   MAKE BRAY
AL KIGGINS   BOB BONDS   FRED ROLAF

© 1972 - Superfly Production - Warner Bros. 

3 comentários:

Amanda Aouad disse...

Parabéns pela iniciativa, Rodrigo. Confesso que fiquei mais no estudo do movimento Blaxploitation que na apreciação dos filmes em si. Preciso corrigir isso.

bjs

Hugo disse...

Foi um gênero que marcou os anos setenta. Eu assisti a trilogia "Shaft", por sinal o original é bem melhor que o remake de John Singleton.

Conferi também os dois "Cleopatra Jones" que são apenas razoáveis.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Amanda- Obrigado.
Reveja alguns deles que são realmente muito bons. Outros ouso em dizer que são verdadeiras obras-primas como "A Máfia Nunca Perdoa". Engraçado que o Tarantino gosta tanto deste período que quando fui conhecer alguns títulos que faltavam, como "Coffy" que é praticamente uma readaptação sutil em qualquer obra sua e não somente em "Jackie Brown".
A trilha de Truck Turner, por exemplo, aparece em "Kill Bill Vol. 1" e por aí vai...

Bjs.

Hugo- Sem comparação. O problema da fita de Singleton é que ela é beeeem fora de contexto, época. Portanto, é inútil fazer uma ode, homenagem de um jeito artificial, usando a mesma trilha musical (aliás, vencedora do Oscar na época) se o filme é apenas um policial genérico. Gosto do Samuel L. Jackson, mas nem ele com o talento que têm consegue superar Richard Roundtree, e que, aliás, faz uma ponta besta no filme.

Abraço.