sexta-feira, 21 de julho de 2017

John Waters | Pink Flamingos (1972)

The Divine Dog Poop!
Divine enfrenta um casal desprezível que pretende humilhá-la e aproveitar seu título dado por tabloides como "The Filthiest Person Alive".



Continuando a maratona de filmes da década de 1970 aqui no blogue. Antes de voltar ao submundo dos filmes Blaxploitation, eis aqui uma pérola (também do submundo) de 1972. Um dos filmes mais surpreendentes que já vi. Pelo menos quando eu era adolescente foi essa a impressão e de como PINK FLAMINGOS foi a primeira fita a mostrar-me um novo mundo repleto de pessoas diferentes. Estranhas? Malucas? Que sejam! De que neste mundão existiam (e existem) coisas estranhas. É fato! Algo que jamais imaginei. E de que o Cinema não era apenas uma sessão da tarde. Pois hoje eu sei que existem uma infinidade de filmes underground, que à época, enquanto menino, eram-me obras censuradas. JOHN WATERS e mais tarde PEDRO ALMODÓVAR foram os cineastas responsáveis por romperem de vez a minha velha infância. Bem, e por falar em Waters, vou apresentar uma breve escrita do perfil deste que é um dos diretores americanos dos mais controversos de seu tempo. 

Pra começar...ele foi o rei absoluto do CINEMA TRASH ou underground/punk. Ativo na cidade de Baltimore, Maryland, onde normalmente rodou todos os seus filmes.  Depois de uma estadia em Nova York para estudar Cinema, curso que nunca completou depois do seu envolvimento com o LSD e a subcultura nova-iorquina, estabeleceu-se em Baltimore e lá fez grande parte se sua obra com orçamentos minúsculos (entre 2 mil e 10 mil dólares). Impossível descrever seu estilo, a não ser por sua obsessão pelo nojento, grotesco, kitch, a violência e os ataques constantes a qualquer instituição estabelecida  ou respeitada. Descobriu nas ruas de Baltimore um homem gordo chamado HARRIS GLENN MILSTEAD (1945-1988), ator, cantor e performer e que batizou de DIVINE"The Filthiest Person Alive". Ela, a personagem Divine, virou uma lenda no âmbito da comunidade LGBT. Apesar de outros talentos, Milstead só ficou cultuado vestido de mulher, e, sim, foi uma das maiores Drag Queen em todos os tempos (embora outros afirmem que era travesti, enfim...) o fato é que manteve-se o culto Divine e uma forte inspiração para outras personagens de ficção do gênero e não somente para por aí, mas em obras de arte e música, Divine é um figura muito querida, além de livros, documentários sobre ela, etc, que dedicam com carinho a história de sua vida. 

Recomendo que assistam DIVINE TRASH (1998), dirigido por Steve Yeager e outro ótimo I AM DIVINE, de 2013, de Jeffrey Schwarz, mais um material completo sobre a musa de John Waters. 

Não tem como negar, porque em se tratando de Waters só existem dois caminhos: ame ou odeie. 

A sua obra inicial é, de fato, de um mau-gosto tão grande que Waters encarou ofensas a seus filmes como elogios. Ele bem disse certa vez: "Se alguém vomitar durante a projeção de um filme meu, considero isso como uma ovação"

Certamente não havia meio-termo. O seu Polyester, de 1981, foi apresentado em Odorama, em que uma cartela dada a cada pessoa na plateia que, ao ser raspada, exalava cheiros diferentes. Nem me perguntem quais! Contudo, no final dos anos de 1980, até Waters mudou. Ficou bem comportado e passou a fazer comédias para Hollywood ligeiramente ousadas. (seus melhores filmes da nova fase são: "Mamãe é de Morte"(Serial Mom, 1994, com Kathleen Turner) e "Cecil Bem Demente" (Cecil B. DeMented, 2000, com Melanie Griffith), além de Hairspray - E Éramos Todos Jovens, 1988, último com Divine e que posteriormente transformou-se em um Musical de sucesso. Cito também Cry-Baby (1990), estrelado por Johnny Depp, em plena ascensão de carreira, também passado nos anos 50 com o mesmo gosto para musicais juvenis. Pois é, o velho rebelde amansou e se contentou com situações meramente gaiatas. Continua aparecendo em filmes como ator, participações na TV, etc, mas não filmava desde 2004 (com "Clube dos Pervertidos", apesar do título, um filme bem manso) e lançou recentemente o pouco visto Kiddie Flamingos (2015) com crianças. Este ainda não vi! O fato é que nos anos 70...ah, Waters era o jovem rebelde que ainda não fazia filmes calmos. O resultado dentre vários foi este Pink Flamingos, o mais cult de todos!

Tirem as crianças da sala! Esta fita é provavelmente o "melhor pior" filme já feito e há poucos competidores do cinema alternativo underground por aí, creio. Dentro desta proposta, Flamingos é notório justamente por ser puramente vulgar. Não houve manual de Cinema. Não houve nenhuma cartilha que se preze. Era feito na raça, na ousadia, no improviso. O roteiro? Existia, mas era mudado constantemente. Com poucos recursos e filmando nas locações de sua cidade natal, Waters narra a trama "o cotidiano" de sua musa inspiradora, Divine e ou/ Babs Johnson que vive (e sobrevive) em um trailer xexelento com a sua família igualmente excêntrica. E que calvário para a querida Babs! O filho é um hippie com problemas mentais (Crackers, interpretado por Danny Millis) e a sua mãe obesa que vive em um berço (parece uma figura tirada do filme "Freaks"!) é obcecada por ovos! Isso mesmo, ovos! Uma interpretação digna da querida Edith Massey (1918-1984), outra atriz constante nas primeiras fitas do diretor. 

O antagonismo da história é a briga que se sucede entre eles. Babs está a fim de sobrepujar a Família Marble, conscientemente anormais e anti-sociais, aliás, interpretados por outros dois atores habituais de Waters, Mink Stole e David Lochary (1944-1977), em termos de comportamento repugnante e imoral, para se tornar nada menos, ou talvez mais, do que The Filthiest Person Alive - A pessoa mais grotesca/suja viva". Embora os Marble representem um forte desafio raptando e engravidando moças que pedem carona para depois venderem os seus bebês a casais de lésbicas, para finalmente usar o dinheiro financiando a venda de drogas em pátios de escolas, a Babs (Divine) é osso duro em sua missão de manter o trono de sua família (parece uma versão anos 70 de Game of Thrones bem mais sórdido. Risos). Enfim, é um filme que nos convida para uma série de acontecimentos inesperados e ultrajantes. 

Waters faz do jeitinho que se deve para seu filme ser digno da característica cult trash. Propositalmente, sua filmagem é granulada, traz um aspecto amador, caseiro, sua fotografia (do próprio Waters) é por vezes mal enquadrada e desfocada, zooms aparentemente casuais e aleatórios, cortes súbitos e qualidade sonora desigual. Obviamente nem foi redublada. Tudo isso acresce à experiência imersiva de se ver um filme underground. Bem, sem contar que, além do mais, Pink Flamingos é um filme que dedica-se em mostrar sincronizações labiais feitas com o ânus! Loucura demais? Continuo...produtos de movimentação intestinal entregues pelo correio, além de zoofilia com frangos! E isso é apenas o começo. Há em seu epílogo uma das cenas mais famosas do Cinema. Divine pára em uma rua no centro de Baltimore para pegar o cocô ainda fresco de um cachorrinho. E não acreditei quando assisti pela primeira vez. E não consigo rever esta parte do filme. Aquele nojinho básico que dura algumas semanas. A maluca e corajosa, diga-se, Divina... coloca em sua boca a merda do dog, mastiga por alguns instantes, e depois vomita, evidentemente. Para, no final, olhar para a câmera com aquela careta hilária. Não foi truque. Montagem. Ou qualquer coisa que o valha. Não é exagero afirmar que a cena em questão é uma das mais memoráveis. E vou mais além, não apenas do cine underground, mas de toda a história do Cinema! Se Hitchcock realizou a cena do chuveiro de Psicose e Steven Spielberg teve a ideia brilhante da icônica pedra que rola atrás do Indiana Jones em Os Caçadores da Arca Perdida, ou mesmo o famoso beijo de  John Wayne e Maureen O'Hara em Depois do Vendaval John Waters combina perfeitamente humor e vulgaridade com Divine comendo merda de cachorro em Pink Flamingos. E por mais que o diretor tenha continuado com sua inventividade ousada em fitas como FEMALE TROUBLE (1974) - outro entre os meus favoritos, não houve filme mais orgulhoso de ser trash e de levar com honraria a  palavra disgusting ao pé da letra. 

Se você tiver senso de humor e estômago. Ei-lo. 
6
6
6


Estados Unidos
Comédia
1h 33min.
U John Waters 
★★★☆☆



UM FILME DE JOHN WATERS


Pink
Flamingos
© 1972 by Dreamland 

Estrelando: Divine
David Lochary  Mary Vivian Pearce
Mink Stole  Danny Millis  Edith Massey
Channing Wilroy  Cookie Mueller  Paul Swift
Susan Walsh Pat Moran  Pat Lefaiver
Jack Walsh  Bob Skidmore  Jackie Sidel

Direção de Arte:  Vincent Peranio

Roteiro, Produção, Fotografia, Montagem & Direção: 
John Waters 

2 comentários:

Hugo disse...

Lembro que muitos críticos nos anos 80 e 90 elogiavam bastante John Waters.

Vi apenas o trailer destes filmes dos anos setenta e por inteiro somente "Cry Baby" com Johnny Depp. Não gostei do estilo, por mais que curta filmes diferentes, achei bizarro demais.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

É o que disse, Hugo. Ame ou odeie.

Abraço